Inovação de Processos: Entrevista com a Profa. Dra. Cassiane Chais

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Aliar o conhecimento teórico adquirido na universidade com o ambiente prático das empresas e indústrias, gerando valor para a sociedade por meio da inovação de processos, é um dos principais desafios dos pesquisadores. Em tempos de pandemia global, essa busca por soluções acaba por se intensificar, visto que novas descobertas científicas podem significar importantes avanços nos diversos setores da economia.

Pensando nisso, este artigo pretende analisar os conceitos de Inovação de Processos, Gestão do Conhecimento e Tríplice Hélice. Para isso, convidamos a Coordenadora do Parque de Ciência, Tecnologia e Inovação (TecnoUCS) e da Incubadora Tecnológica (ITEC/UCS) da Universidade de Caxias do Sul (UCS), Cassiane Chais, para abordar a importância dessas temáticas no cenário empresarial.

Cassiane é Doutora em Administração (UCS) com período sanduíche no Tecnológico de Monterrey (México), é Mestra em Administração (UCS) e Especialista em Gestão Secretarial (UPF).

Inovar para Evoluir

SoftDesign – O que é Inovação de Processos? Qual a sua importância na evolução das empresas e na melhoria de seus produtos e serviços?

Cassiane Chais: As empresas têm processos definidos em diversos setores. Entretanto, observamos que quando falamos em processos no mundo coorporativo, as pessoas tendem a associar essa ferramenta à burocracia. Na maioria das vezes, o intuito de implantar ou otimizar um processo é simplesmente uma maneira de definir início, meio e fim de uma rotina de trabalho. Ou seja, significa organizar um caminho para que as atividades que desempenhamos no dia a dia possam ser colocadas em prática de acordo com uma orientação.

Por exemplo, um setor financeiro possui várias etapas e atividades: folha, pagamento de boletos e precificação de produtos. Tudo isso é resultado de processos e esses são completamente necessários. Já que não é possível fugir deles, a empresa que realmente conseguir se ‘processualizar’ terá mais chances de criar valor para a organização.

Os processos existem para termos definido de forma clara e lógica como uma atividade deve ser executada. Já inovar em processos é pensar de maneira diferente. Por exemplo: no passado, as empresas que precisavam fazer contagem de estoque necessitavam de um funcionário para desempenhar esse ofício manualmente. Com a criação do código de barras, esse processo passou por uma grande inovação, e agora é possível monitorar quais são os produtos que saíram da prateleira e quais estão disponíveis para comercialização por meio de um simples programa de computador.

Dessa forma, nesse caso, gerenciamos a empresa por meio da automatização. Além disso, a informação pode ser consultada a qualquer hora e em qualquer lugar, sem precisar estar presencialmente dentro da organização. O QR code também facilita esse tipo de ação e representa uma inovação de processos.

Identificando a Inovação

SD – A Inovação de Processos é sempre visível?

CC: Nem sempre. Às vezes a inovação acontece de uma maneira mais subjetiva, enquanto em outras oportunidades o processo influencia o produto final, acarretando um tipo de alteração mais visível – como é o exemplo de uma mudança de embalagem. Entretanto, isso depende do que está sendo alterado. Um processo dentro de um setor financeiro terá no máximo uma mudança de sistema, ou seja, não é uma mudança de produto, é uma melhoria/ otimização de um processo já estabelecido dentro da organização.

A inovação de processos também pode ser identificada em novos fármacos. Em laboratórios, existem processos para implementar uma inovação que reduza o custo ao utilizar menor quantidade de matéria prima e equipamentos diferenciados. Nesse caso, observaremos uma mudança de produto ao comprá-lo na farmácia.

No exemplo do fármaco, podemos verificar a fórmula para tentar identificar se o laboratório retirou alguma enzima ou se inseriu uma nova molécula no medicamento. Porém, para os leigos essa mudança passará despercebida, reforçando a ideia de que muitas vezes não iremos tomar conhecimento de uma inovação de processos.

SD: Quais são os benefícios da Inovação de Processos?

CC: A redução de custos e a redução de tempo de elaboração do produto são os principais benefícios da Inovação de Processos. Ao inovar e automatizar processos, o cliente passa a observar o valor agregado de um novo produto e assim aumentamos nosso potencial de diferenciação no mercado.

Um produto que antes desempenhava apenas uma função, agora é multiuso. Com o fortalecimento do conceito de Internet das Coisas, atualmente temos internet em tudo: na geladeira, na televisão, no relógio etc. Eu penso que isso é fundamental para as empresas e deve caminhar de mãos dadas com a estratégia de custos, no processo de criação de um determinado produto ou serviço.

Se conseguirmos reduzir os custos de alguma forma, agregaremos um valor significativo à empresa. Além disso, em alguns casos o cliente irá perceber que o produto passou por uma renovação. Já nas organizações, isso acontece quando novos processos são estabelecidos e conseguimos perceber essa alteração no sistema organizacional.

Mudar Nem Sempre é Inovar

SD: Qual a diferença entre Melhoria de Processos e Inovação de Processos?

CC: Há uma confusão entre melhoria e inovação. É comum observar empresas defendendo a ideia de que inovaram no processo ao adquirirem um determinado tipo de equipamento. E é importante ressaltar que quando a organização compra uma máquina nova e isso realmente impacta no que está sendo implementado no todo, podemos sim dizer que se ocasionou uma inovação.

Perceba que esse movimento muda a forma de fazer a gestão dentro da organização – reduzindo custos e tempo de hora de trabalho – resultando em um produto diferenciado. Entretanto, inovar não é simplesmente colocar uma máquina nova na produção, sem indícios de que essa ação impulsionará uma transformação empresarial e retorno econômico. É o mesmo que adquirir um novo sistema operacional para o setor financeiro: isso não é inovar. Há muitos casos, em que não podemos equiparar melhoria de processo à inovação de processo, ou melhoria com inovação.

Por isso, é fundamental compreender a diferença entre melhoria e inovação. Na teoria, existe um conceito chamado Abrangência da Inovação, que explica que a inovação pode acontecer em diferentes ambientes: na empresa, na região ou no mundo.

Quando implementamos algo que torna a empresa competitiva, mesmo que o seu concorrente direto já o faça, esse processo pode ser considerado inovador para a organização em questão, embora não seja inovador para o mercado. Porém, o processo de inovação das empresas continua sendo essencial para a sua sobrevivência. Eu recomendo que todos façam o exercício de olhar para a concorrência com foco em inovação e não necessariamente para ‘reinventar a roda’.

Dessa maneira, a organização pode se posicionar no mercado de forma mais estratégica. Porém, é necessário ressaltar que sem a inovação o lucro não terá um aumento expressivo, visto que a organização não está propondo uma mudança disruptiva para o setor no qual está inserida. Quando queremos inovar para o mundo, precisamos ter como exemplo empresas como a Apple, que com o lançamento do computador de mesa, mudou a forma como vivemos e trabalhamos.

SD: Qual a relação entre a Inovação de Processos e a Gestão da Inovação dentro de empresas?

CC: A Inovação de Processos está relacionada com a Gestão da Inovação. Na verdade, a inovação nada mais é que um processo. Não acordamos todos os dias motivados a mudar o mundo e a empresa com ideias brilhantes (Eureka!). A inovação não acontece dessa maneira.

Cada processo possui início, meio e fim, e quando falamos em gestão de processos e projetos estamos na verdade nos referindo a gestão de cada uma dessas etapas. A inovação seja ela do tipo, da dimensão e da abrangência que for, possui dois objetivos: gerar valor para o consumidor final e aumentar a competitividade da organização no mercado.

A Gestão da Inovação se propõe a gerir e determinar as estratégias de inovação da empresa de maneira global e a inovação de processo é uma das quatro dimensões da inovação propostas pelo Manual de Oslo: inovação de produto/serviço; inovação de processo; inovação de marketing ou posicionamento competitivo e inovação de gestão.

O Papel do Conhecimento

SD: Podemos aproximar a Gestão da Inovação à Gestão do Conhecimento?

CC: Gerir o conhecimento é gerir um dos maiores ativos dentro da organização. A inovação é feita de conhecimento: técnica, teoria, pesquisa e prática. A Gestão do Conhecimento também integra esse processo. Autores como Nonaka e Takeuchi trabalham muito esse conceito, levando em consideração a espiral do conhecimento dentro das organizações.

Por isso, questione-se: de que forma iremos gerar e internacionalizar esse conhecimento para que as pessoas aprendam? Perceba que a empresa que aprende consegue inovar de maneira mais ágil. E lembre-se: a inovação também possui um timing. Às vezes é preciso acelerar o processo e até mesmo desistir de entregar uma inovação ao mercado, para que o concorrente não lance a mesma ideia primeiro.

Logo, Gestão de Processos, Gestão de Conhecimento e Gestão de Inovação devem andar em conjunto dentro das organizações. Mais que isso, elas são muito importantes para o objetivo final: gerar valor, competitividade e retorno econômico.

Pesquisar ou Não Pesquisar, Eis a Questão!

SD: Por que setores de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) são tão relevantes para as empresas atuais?

CC: Eu tenho convicção que não são todas as empresas que precisam ter um setor de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), pois com o auxílio de aliados é possível desenvolver esse setor por meio de parcerias. Considero fundamental que a empresa saiba onde quer chegar, qual a sua missão e os seus objetivos. Depois de definir a sua estratégia, será mais fácil identificar as suas necessidades.

Entretanto, se o objetivo organizacional é se manter no topo, ao lado de empresas como, por exemplo, a Google – que chegou num patamar altíssimo – o investimento em P&D torna-se crucial. Para manter-se entre os melhores, a inovação certamente é o caminho. Para isso, será necessário investir em pesquisa e desenvolvimento para propor inovação radical ou disruptiva e por conseguinte, obter lucro diferenciado.

Mas, lembre-se que se manter nessa posição é algo muito difícil, e isso não acontece sem investimento em mão de obra qualificada: pesquisadores, mestres e doutores. Esses são os profissionais que trarão diferencial competitivo no futuro, pois trabalham orientados para que a inovação aconteça, nas mais variadas dimensões.

Eu considero importante aproximar essa ideia da nossa realidade, já que em muitos casos as empresas sequer possuem condições de manter o atual quadro de colaboradores. Logo, como irão investir em um setor de P&D? Esse pensamento focado em inovação pode contribuir para a descontinuidade da organização – que pode se comprometer com um investimento financeiro que muitas vezes não consegue suportar.

Por isso, sempre oriento que os gestores foquem primeiro no objetivo principal da empresa, pois chegará um momento em que haverá condições para pesquisar e inovar. Enquanto isso, as organizações com menos recursos podem investir em inovação com o auxílio de aliados: Universidades, Centros de Pesquisa e Parques Tecnológicos.

Existem diversos caminhos a serem percorridos e o grau de maturidade da organização e das suas lideranças é que vai estabelecer o ritmo e a direção. Investir em inovação é vital, mas é necessário fazer isso de maneira adequada e assertiva, principalmente em tempos de crise.

A União Faz a Força

SD: O que é a Tríplice Hélice? Temos exemplos na Universidade de Caxias do Sul?

CC: A Tríplice Hélice é um modelo teórico de inovação. Existem algumas iniciativas para colocá-la em prática, mas trata-se de algo complexo. Nesse modelo, as ações e projetos dependem da união de três forças: Empresa, Governo e Universidade. Cada uma dessas hélices, possui objetivos, gestão e timing diferentes, mas quando essas forças estão alinhadas geram diferencial competitivo relevante para as empresas, regiões e países.

Sabemos como se desenvolve o trabalho em uma instituição de ensino, nas empresas e no setor público, que é onde está o Governo. A Tríplice Hélice é a conexão entre todos esses atores, com a missão de encontrar o ritmo perfeito para que cada um deles possa desenvolver o seu papel de forma plena e eficiente.

Como numa orquestra, cada um desses ‘músicos’ toca o seu ‘instrumento’ respeitando a partitura, ou seja, o seu papel dentro do ecossistema de inovação. Isso ocorre para que a música realmente possa ser ouvida. O modelo de inovação da Tríplice Hélice foi proposto pelos argentinos Sábato & Botana, em 1968. Mas a sua disseminação ocorreu por meio dos estudos de Henry Etzkovitz mundo afora.

Mas, afinal, como ele funciona? Na prática, o Governo trabalha para propor legislações e diretrizes para que a inovação aconteça dentro da esfera em que ele está inserido (municipal, estadual e federal). Isso ocorre por meio de benefícios fiscais e trabalhistas, entre outros. A Lei da Informática e a Lei da Inovação Nacional são exemplos desses mecanismos que geram inovação.

Já as Empresas e Universidades assumem a tarefa de pensar ações em prol da inovação de forma prática, por meio da geração de novos processos, produtos e serviços. A responsabilidade de levar essa inovação aos consumidores é das empresas e indústrias, que irão produzir em escala.

Um dos papéis da Universidade é compreender a importância desse processo para a formação profissional dos alunos, incentivando essa conexão entre as empresas e as instituições de ensino. No fim, essa engrenagem precisa rodar em conjunto para que tenhamos resultados importantes e inovadores.

Já existem propostas de modelos de inovação com quádrupla e quíntupla hélice, mas a Tríplice Hélice continua sendo o mais abordado mundialmente, pois faz com que cada ator descubra e desempenhe o seu papel para que um Município, Estado ou Nação possam desenvolver uma dinâmica baseada em inovação.

Esse movimento está presente em todo o Brasil. Na Serra Gaúcha, temos um bom exemplo de aproximação entre empresários, prefeitura e universidade, que busca soluções para a crise de saúde que enfrentamos devido a pandemia de Covid-19. Por meio desse esforço e de uma linha de financiamento federal, surgiu o Thor – ventilador mecânico pulmonar criado pela Zextec, que será lançado no mercado em breve, com um custo menor do que os que temos atualmente.

Esse exemplo comprova que o modelo de Tríplice Hélice vem sendo colado em prática, gerando valor e competitividade. Além disso, nesse movimento também contamos com o auxílio das pessoas da comunidade, que fizeram o papel da quarta hélice.

Transformando Teoria em Prática

SD: Como o TecnoUCS atua junto a empresas para auxiliar em sua inovação, tanto de processos, quanto de produtos ou serviços?

CC: Recentemente, em dezembro de 2020, a Universidade de Caxias do Sul (UCS) lançou um novo projeto intitulado UCS Inova, que propõe uma Agência de Inovação. Essa postura é um reflexo da gestão da instituição de ensino, que tem uma proposição de olhar de forma diferente para o que já está sendo feito, com o intuito de identificar o que é possível aperfeiçoar e melhorar.

A proposta é ser uma mola propulsora. Esse movimento integra o conceito de Universidade Empreendedora, que de acordo com essa teoria sugere que a instituição deve assumir a responsabilidade de propor inovação, apontando ao Governo e as empresas o caminho a ser seguido.

Esse exercício de tornar a universidade mais empreendedora e ativa, nada mais é do que fazer com que a cultura da inovação se estabeleça dentro da Academia, por meio de eventos, articulações entre alunos, colaboradores, empresários locais e Governo. Nosso papel é articular essas hélices com foco em gerar novos negócios e resolver problemas que a sociedade demanda.

Fazemos isso por meio de hackathons e eventos que estimulam a geração de ideias. O TecnoUCS é uma dessas dimensões. Além dele, existem também a dimensão StartUCS (novas startups e negócios) e a IdeiaUCS, onde centralizamos todo o processo de novas ideias para ajudar as pessoas a desenvolverem produtos e serviços.

Esse processo ocorre no ambiente físico do TecnoUCS, que além de receber empresas residentes, também funciona como um espaço de coworking. Outra iniciativa importante desse projeto é o CatalisaUCS – agência de projetos focada em melhorar processos dentro dessas organizações.  Ela contém uma série de dimensões para dar suporte a ações governamentais (em contexto municipal) e empresariais. Um desafio do qual tenho muito orgulho de fazer parte.

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