Setembro Amarelo: falar para prevenir

Tempo de leitura: 9 minutos
Desenvolvimento de Pessoas
por em 6 de outubro de 2020

No dia 30 de setembro, nosso SoftDrops foi diferente: convidamos a psicóloga Giane Pontes Pereira, terapeuta EMDR, especialista em Terapia Sistêmico-Cognitiva de Famílias e Casais, com formação em Terapia Focada nas Emoções, para conversar com nossos colaboradores sobre o Setembro Amarelo.

A campanha brasileira de prevenção ao suicídio acontece desde 2014, organizada pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) em conjunto como Conselho Federal de Medicina (CFM). Seu objetivo é trazer à tona o diálogo sobre o assunto, visto que a cada ano mais de 1 milhão de pessoas cometem o ato no mundo.

A prevenção deve ser feita todos os dias

Antes de começar sua fala, Giane sugeriu um exercício aos participantes do SoftDrops: pediu que todos mentalizassem alguma imagem, lugar ou situação positiva, algo que lhes trouxesse alegria e bem-estar. A ideia era pensar nessa lembrança para sentir novamente a sensação agradável, para esvaziar a mente e então começar o diálogo sobre o tema – sugerimos que você, que está lendo este texto, faço o mesmo exercício antes de continuar a leitura.

A terapeuta lembrou que a prevenção ao suicídio não é uma exclusividade do mês de setembro, mas é um tema importante de saúde pública que deve ser discutido todos os dias. E questionou:

Por que vocês vão ao dentista? Por que vão ao cardiologista? Em que momento vem a preocupação de fazer uma revisão de saúde? Aprendemos que essas e outras especialidades são importante para manter a nossa saúde física, para prevenir problemas futuros. Da mesma forma, devemos olhar para a saúde mental.

O suicídio é um fenômeno que existe desde sempre na humanidade, e ele está atrelado a transtornos mentais que devem ser prevenidos e tratados. Infelizmente, há ainda um grande tabu em falar sobre o assunto, e justamente por isso o slogan da campanha Setembro Amarelo é Falar para Prevenir.

A ideia de que discutir o assunto mobiliza ou incita o ato provocou, durante muito tempo, uma afirmação de que a pessoa com ideação suicida não poderia desabafar sobre o assunto, que deveria guardar para si seus pensamentos e sentimentos. Hoje, entende-se que falar da forma adequada, com respeito, contribui para a prevenção e para o tratamento. A informação é preventiva, explicou Giane.

A importância do olhar atento e sem julgamento

O suicídio é sempre uma questão multifatorial. Ou seja, quando se ouve que alguém cometeu suicídio porque estava desiludido com um relacionamento, por exemplo, esse é somente um dos fatores que levaram a pessoa ao ato, é a ponta do iceberg, que veio em cima de uma vulnerabilidade maior.

De acordo com a terapeuta, dentro da medicina e da psicologia, o suicídio é visto por etapas.

1. A primeira delas é que pessoas que estão passando por um sofrimento psíquico consideram a ideia de morrer com frequência e intensidade. Muitas vezes, elas não falam diretamente sobre morte ou suicídio, mas expressam seu estado de outra forma como: estou muito cansado; quero dormir e não acordar mais; quero acabar com tudo. São expressões de finitude.

2. A segunda etapa é vista como o momento em que o pensamento evolui para o efetivo planejamento do ato. Aqui, a preocupação aumenta consideravelmente, visto que a pessoa está imaginando formas de tirar a própria vida. Essa fase pode ser breve ou longa, varia de caso para caso, e envolve a preparação para o suicídio.

3. Por fim, a terceira etapa é a tentativa em si. Muitas vezes, a pessoa consegue se suicidar, e em outras o ato não se efetiva – ou porque alguém socorreu, ou porque o plano não deu certo.

Giane afirmou que é importante ter conhecimento sobre essas três fases para que possamos estar atentos às pessoas ao nosso redor, para que possamos identificar alguém que esteja precisando de ajuda. “Ouvimos popularmente que quem quer se matar não avisa, não pede ajuda; ou que a pessoa está só querendo chamar a atenção. Isso não é uma realidade. Muitas vezes, quem está dando sinais acaba efetivando a tentativa em algum momento. Então sim, é importante o ouvido atento e sem julgamentos, o olhar para tais discursos e o encaminhamento para o auxílio médico”.

Transtornos mentais são fatores de risco

A terapeuta salientou que há um caráter de impulsividade no ato suicida. Muitas vezes a pessoa está pensando, planejando, e aí entra o fator impulsividade. Qualquer evento desencadeante, como o exemplo citado de uma desilusão amorosa, pode ativar essa impulsividade. Ou seja, nunca é cedo para uma intervenção quando se percebe que alguém não está bem.

Lembro que mais de 90% dos casos de tentativa de suicídio estão ligados a transtornos mentais. Ou seja, a pessoa dá sinais de que não está bem. Em primeiro lugar está a depressão, seguida do transtorno bipolar e, em terceiro, abuso de substâncias como álcool e outras drogas.

Vivemos uma cultura em que falar sobre emoções e sobre o que sentimos não é bem-vindo. E isso precisa ser mudado para que haja um olhar cuidadoso ao sofrimento psíquico. Psicólogos e psiquiatras existem para auxiliar e, por isso, é tão importante que aprendamos a expressar as nossas emoções, comentou Giane.

É importante considerar que os transtornos mentais podem estar relacionados a fatores genéticos, mas também podem ser causados pelo meio em que se vive. Situação econômica, familiar, lutos, traumas, entre uma uma série de fatores sociais, podem influenciar e fazer parte da vivência de sofrimento. O fator isolamento social também deve ser considerado e, infelizmente, há um aumento nas tentativas de suicídio desde o início da pandemia do novo coronavírus.

Alguns dados importantes

Ademais, a terapeuta pontuou algumas informações relevantes que podem contribuir para o nosso olhar atento às pessoas que nos rodeiam:

– Dificilmente a pessoa que comete suicídio quer morrer – isso é paradoxal. O que ela quer na verdade é acabar com determinado sofrimento ou problema, e ela não encontra outra alternativa senão o ato;

– Uma pessoa que já tentou suicídio tem maior probabilidade de tentar novamente, ou seja, tentativas prévias são vistas como fatores de risco;

– O suicídio é a segunda maior causa de mortes entre jovens de 15 a 29 anos, entretanto crianças, adultos e idosos também podem cometer o ato;

– Mulheres têm um maior número de tentativas de suicídio do que homens. Homens têm menos tentativas porque tendem a agir de uma forma efetiva. Ou seja, homens acabam por cometer mais suicídio do que mulheres;

– Muitos suicidas trazem uma história de vida bastante difícil, onde já há o histórico de suicídio na família, em gerações anteriores. Isso surge então como um comportamento daquele núcleo, uma estratégia de resolução de conflitos e problemas.

Se precisar, procure ajuda

Ao final do SoftDrops, Giane lembrou aos participantes da existência do Centro de Valorização da Vida (CVV), que realiza apoio emocional e prevenção do suicídio. Eles atendem voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, pelo telefone 188, e-mail e chat 24 horas todos os dias, em cvv.org.br.

E, antes de se despedir, a terapeuta pediu que os participantes lembrassem novamente daquela imagem, lugar ou situação positiva, para que a alegria e bem-estar aliviassem o peso do assunto que, apesar de dolorido, precisa ser explorado. Sugerimos que agora, você que chegou até aqui, faça isso também.

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