Mulheres na Computação e suas Histórias de Inspiração

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São muitas as pautas urgentes, relevantes e necessárias sobre as quais devemos refletir no Dia Internacional da Mulher: maternidade, segurança, equidade salarial e violência de gênero são algumas delas. No mercado de tecnologia, a minoria de profissionais mulheres também chama a atenção e, para então repensar o dia 8 de março, o Comitê de Diversidade e Inclusão da SoftDesign, organizou a palestra Mulheres na Computação e suas Histórias de Inspiração, apresentada pela Profa. Dra. Sílvia Amélia Bim.

Sílvia é Professora Associada do Departamento Acadêmico de Informática da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR-CT). Integrante da Comissão de Educação da Sociedade Brasileira de Computação (SBC). Coordenadora do Programa de Extensão TIChers da UTFPR-CT e consultora do Programa Meninas Digitais. É bacharel em Ciência da Computação (UEM), mestre em Ciência da Computação (UNICAMP) e doutora em Ciências — Informática pela PUCRio.

No encontro com a SoftDesign, Sílvia compartilhou histórias que demonstram como a área de tecnologia contou com a presença feminina desde seus primórdios. Ainda, a professora afirmou que esse mercado pode ser um grande aliado das mulheres na busca por direitos e qualidade de vida.

Who Hacks the World? GIRLS!

O tema Mulheres na Computação foi escolhido por Sílvia, pois dialoga com pelo menos três Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS): Educação de Qualidade, Igualdade de Gênero e Redução das Desigualdades. Esses objetivos integram a Agenda 2030 definida pela ONU, que por meio de um plano de ação global pretende erradicar a pobreza e promover a vida digna a todas as pessoas, sem comprometer a qualidade de vida das próximas gerações.

Para contextualizar o cenário das mulheres na Computação, Sílvia compartilhou no início de sua palestra alguns resultados de um estudo realizado pela Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom), em setembro de 2021.

 

gráfico 1

Fonte: https://brasscom.org.br/pdfs/demanda-de-talentos-em-tic-e-estrategia-tcem/

De acordo com o gráfico acima, a remuneração no setor de tecnologia é pelo menos 2,5 maior que a média nacional. Com isso, Sílvia diz identificar uma possibilidade de reduzir a desigualdade e promover a ascensão social de quem tem a oportunidade de escolher a Computação como uma carreira profissional.

Outro recorte que esse estudo destaca é a formação. “No Brasil, conseguimos aumentar o número de mulheres estudantes no ensino superior e hoje somos maioria (56,1%). Entretanto, nos cursos de Tecnologia da Informação e Comunicação, o número é extremamente reduzido (14,8%)”, ressalta.

 

gráfico 2

Fonte: https://brasscom.org.br/pdfs/demanda-de-talentos-em-tic-e-estrategia-tcem/

Ao analisar o gráfico de acordo com raça e gênero, as desigualdades são ainda maiores e isso é um problema sério para a nossa sociedade. Sendo assim, a Brasscom reconhece serem necessárias ações que visem incentivar pessoas do gênero feminino a construírem carreiras em Tecnologia. Além disso, se observarmos o gráfico abaixo, verificamos que existe uma demanda de 159 mil talentos por ano no Brasil, mas os cursos de Tecnologia da Informação só conseguem formar 53 mil profissionais. Com mais mulheres na área, essa carência poderia ser reduzida.

 

gráfico 3

Fonte: https://brasscom.org.br/pdfs/demanda-de-talentos-em-tic-e-estrategia-tcem/

The Future Is Female

Uma pesquisa do Preta Lab, projeto que incentiva mulheres pretas a ocuparem espaço na Computação, aponta que no Brasil quem atua na área são homens jovens, brancos e que começaram os estudos em centros formais de ensino. “Isso sinaliza uma demanda para investir em formação e diversidade nas equipes de TI. Se uma equipe de desenvolvimento tiver diferentes olhares sobre a realidade e, essas visões puderem ser compartilhadas com o mesmo grau de importância, então a empresa terá mais chances de realmente encontrar soluções que simplifiquem a vida das pessoas”, ressalta.

Sílvia defende que por meio da diversidade, a inovação e a criatividade se ampliam. “A diversidade tem que ser reconhecida, tem que ter voz e vez. Além disso, a Sociedade Brasileira de Computação reconhece que precisamos de ações para trazer mais mulheres para a Computação, uma delas é o Programa Meninas Digitais, iniciativa criada em 2011 com o objetivo de ampliar essa mensagem para a educação básica”.

Com a aprovação da inclusão da Computação na base nacional comum curricular, a esperança de espalhar essa mensagem está fortalecida. “Acreditamos que ao inserir a Computação já na educação básica, teremos mais chances de suprir essa demanda de mercado. Porém, temos que ter cuidado, pois precisamos falar dessa disciplina com qualidade e foco na igualdade de gênero, mostrando as possibilidades de ascensão social e redução de desigualdades”.

Histórias de Inspiração

Representatividade importa, por isso, o Programa Meninas Digitais realiza cursos, palestras, conferências e publicações com o objetivo de inspirar novas gerações de mulheres, por meio de modelos reais. A verdade é que muitas vezes precisamos olhar para outros exemplos para nos inspirar. Mas o que é ser mulher? Qual é a definição de Computação?

Com o intuito de elaborar esses conceitos, Sílvia apresentou uma série de recortes biográficos para que cada pessoa colaboradora da SoftDesign pudesse construir a sua própria opinião sobre o tema. Essas histórias mudaram o mundo e transformaram o papel da mulher na sociedade contemporânea. Mas, afinal, quem são esses modelos reais?

Ada Lovelace

A história da mulher na Computação começa em 1842. Ada Lovelace, ainda na infância, curiosa em saber como voar, faz um projeto de um cavalo mecânico à vapor — tecnologia da época. Esse é um exemplo muito interessante, que ilustra o poder imaginativo de Ada que anos depois consegue ver o potencial da Computação antes mesmo da construção da máquina analítica de Charles Babbage, seu amigo e parceiro de pesquisa, que com suas inovações proporciona à Ada a oportunidade de criar e escrever o primeiro algoritmo da história.

A partir do texto do engenheiro italiano Menabrea. Ada faz uma tradução do francês para o inglês ampliando em três vezes esse documento e propõe que o funcionamento da máquina iria muito além de cálculos numéricos, e então sugere que também seria possível manipular sons e imagens. “Ada vislumbrou a Computação que temos hoje num momento em que a máquina estava sendo construída. Infelizmente, em 1842, ainda era necessário o anonimato para que a opinião de uma mulher fosse reconhecida e considerada pela sociedade e, por isso, ela assinou sua descoberta somente com suas iniciais”, destaca Sílvia.

Hedy Lamarr

Cem anos depois, em 1942, uma atriz de Hollywood, considerada a mulher mais linda do mundo, cria o que hoje conhecemos como a base do Wi-Fi. Além dessa contribuição, Hedy Lamarr também fica conhecida por negociar um grande salário com um gerente de uma das produtoras de filmes mais famosas dos Estados Unidos. Pense no seu contexto de trabalho atual e reflita: quais são as mulheres que se sentem seguras para negociar os seus salários? Essa é só mais uma das razões para consagrar Hedy como uma inspiração para todas as mulheres na Computação.

A história de Hedy Lamarr é um marco na área da Tecnologia. Entretanto, infelizmente, sua patente também não é assinada conforme o desejável. “Essa é mais uma história de inovação onde a mulher não pode assumir a autoria plena de um documento. Felizmente, no final dos anos 1990, já com quase 90 anos, Hedy é reconhecida por sua contribuição na Computação. Porém, como não se enxerga mais como uma mulher bonita, decide não receber pessoalmente o prêmio EFF Pioneer Award, pois acredita que o julgamento que a sociedade fará da sua aparência irá pesar mais do que ser premiada por suas descobertas”, ressalta Sílvia.

Margaret Hamilton

Já em 1969, Margaret Hamilton, fica conhecida por exercer um papel muito importante no projeto Apollo 11 — primeira missão tripulada à Lua. Sua principal função era antecipar problemas e bugs que pudessem ocorrer durante a missão, visto que atuava como diretora e supervisora da programação de software do projeto. O seu trabalho evitou que o pouso na Lua fosse abortado devido a uma falha humana, prevista por Margaret antes mesmo do lançamento do foguete.

Além de ser uma importante Cientista da Computação, Margaret também é lembrada pelo seu papel como mãe, já que durante o projeto Apollo 11 precisou levar sua filha Lauren para o trabalho em inúmeros momentos. Essa convivência familiar no ambiente profissional, devido à falta de opções de onde deixar os filhos durante a jornada de trabalho, infelizmente continua sendo um dos maiores impeditivos para o aumento da representatividade das mulheres na Computação e no mercado de trabalho em geral.

Clarisse Sieckenius de Souza

De acordo com Sílvia, essas histórias são muito importantes, mas estão distantes cronologicamente e culturalmente da nossa realidade. Por isso, ressaltar exemplos brasileiros de mulheres na Computação é essencial para promover uma mudança de mindset. “O primeiro nome que trago é da professora Clarisse Sieckenius de Souza, que foi minha professora orientadora do doutorado. Ela me inspira, pois sua formação em Linguística auxiliou na criação da área de Interação Humano-Computador (IHC) no Brasil, criando uma teoria brasileira para a área, a Engenharia Semiótica”.

O exemplo de Clarisse deixa claro que pessoas de outras áreas também podem e devem contribuir com a Computação, já que suas diferentes perspectivas ampliam as chances de inovação. Em 2015, Clarisse se tornou a primeira brasileira homenageada no projeto internacional Notable Women in Computing da Universidade de Duke (EUA), que valoriza as mulheres na Computação.

Marcia Ito

Outro exemplo de representatividade feminina na Tecnologia é a professora Marcia Ito. Formada em Medicina e Processamento de Dados, ela é um destaque na área de Computação aplicada à Saúde. “Marcia possui uma carreira belíssima na academia, na indústria e no Governo e, nos inspira ao pensar fora da caixa, ao enxergar uma ligação entre sua carreira de Médica e Engenheira de Software. Esse movimento abre caminhos para que outras mulheres também tenham coragem de passar por transições de carreira”.

Nina da Hora

Cientista da Computação, Pesquisadora e Hacker Antirracista. Nina da Hora, outra personalidade da Computação destacada por Sílvia, é um exemplo de profissional e de ativista. Suas áreas de pesquisa são: Racismo Algorítmico, Algoritmos, Visão Computacional, Fairness, ML e Accountability.

Nina também é membro do conselho consultivo de segurança do TikTok no Brasil, escreve sobre ciência, tecnologia e sociedade para uma coluna do MIT Technology Review Brasil e possui um Podcast chamado Ogunhê, onde conta a história de cientistas negras.

Daniela Rocha de Andrade

Daniela Rocha de Andrade é mulher trans, Analista Programadora e Ativista pelos Direitos das Pessoas Trans/ LGBTQIA+. Formada em Sistemas da Informação, possui mais de 20 anos de experiência no setor de Tecnologia. Atualmente, vive na cidade de Quebec, no Canadá, onde atua como Senior Analyst Developper.

Para a Profa. Dra. Sílvia Amélia Bim, olhar para a história de Daniela é também um exercício de pensar a inclusão na prática. “Conheci a Daniela em um evento do Mulheres na Tecnologia, onde ela reforçou alguns relatos de situações que eu como mulher hetero, cisgênero e branca, nunca imaginei passar como, por exemplo, que banheiro devo utilizar. Esse é um problema enfrentado por mulheres trans desde a época da escola, e faz com que muitas delas não concluam os estudos devido ao ambiente hostil. Infelizmente, essa não é uma questão que se resolve no mercado de trabalho. Logo, temos muito o que avançar!”.

Amanda Caetano Amorim

Amanda é indígena, formada pelo Técnico em Informática e Tecnologia da Informação do Instituto Federal do Mato Grosso do Sul (IFMS). E, este ano, a jovem estudante tirou o 1º lugar no curso de Medicina da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS). “Trago o exemplo da Amanda, pois embora esteja iniciando na carreira, ela já faz um movimento muito diferente. Na sua aldeia, o que se espera das mulheres da sua idade é que se casem e não que busquem uma formação profissional. Sua história possui um grande potencial representativo, capaz de mudar muitas vidas de mulheres indígenas”.

Louise Suelen Araujo Reis

Para encerrar, Sílvia contou um pouco sobre a história de Louise Suelen Araujo Reis. Estudante de Ciência da Computação pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), técnica em Informática pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA) e atualmente Quality Assurance (QA) em acessibilidade.

Louise é um exemplo na área de Tecnologia. “Ela é uma mulher talentosíssima, que tem muito orgulho em ser a única pessoa com deficiência visual da sua equipe de pesquisa que faz relatórios com formatação, por meio de ferramentas de programação. Seu exemplo nos faz pensar em como inserir mais pessoas com deficiência visual no nosso mercado de trabalho”.

Protagonistas da Computação

Destacar o nome e o sobrenome de cada uma dessas mulheres é honrar todo um legado de descobrimento e inovação – essencial para o aumento da presença feminina na área de Tecnologia. Essas pioneiras abriram caminho e hoje, mais mulheres integram o universo profissional da Computação, seja no mundo empresarial ou acadêmico.

Porém, de acordo com Sílvia, não podemos correr o risco de contar uma única história, como já nos alertou Chimamanda Ngozi Adiche. “Escreva a sua versão dos fatos e assine seu nome sem abreviações, sempre que possível. Somos muitas mulheres na Computação no Brasil e todas nós somos uma inspiração. Reconheça a identidade dessas pessoas, divulgue suas pesquisas nas redes sociais e ajude a inspirar mais mulheres a trilharem o caminho da Computação”, conclui.

Que cada vez mais mulheres escrevam suas histórias, inspirem outras mulheres e revolucionem o universo da Computação!

 

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