Empreendedorismo e Cidades Inteligentes: entrevista com a Prof. Me. Flávia Fiorin

Tempo de leitura: 15 minutos
Entrevistas
por and em 24 de novembro de 2020

Quem acompanhou nossas entrevistas ao longo de 2020, notou que – independente do convidado e do tema – compartilhamento, coletivo, ecossistema e propósito foram recorrentes por aqui. Isso reflete o quanto estamos conectados uns aos outros enquanto pessoas, e como a forma como vivemos em sociedade está mudando.

A partir disso, surge a necessidade de entregar mais do que apenas um serviço ou um produto digital. É preciso solucionar dores e resolver problemas, contribuindo com tecnologia e inovação para que o mundo evolua em conjunto. As cidades inteligentes são um exemplo desse movimento, pois visam a maior eficiência dos centros urbanos e buscam melhorar a qualidade de vida dos cidadãos. Nesse cenário, o empreendedorismo aparece como uma importante alavanca que pode impulsionar pessoas e sociedade.

Para refletir sobre esses assuntos, convidamos a Prof. Me. Flávia Fiorin, Executiva do Tecnopuc e Coordenadora da Rede Inova PUCRS, para falar sobre alguns conceitos e trazer a sua perspectiva sobre o tema. Desde já, agradecemos a sua contribuição para o nosso blog.

Empreendedorismo em pauta

SoftDesign – O que é empreendedorismo e por que ele é importante, principalmente em momentos de crise como o que estamos vivendo?

Flávia Fiorin –  A temática do empreendedorismo me fascina. Empreender não é algo novo, o termo existe há mais de 800 anos e significa, em síntese, fazer algo. Dentro disso, o empreendedorismo está muito mais vinculado a uma atitude do que ao desenvolvimento de um negócio em si, mas é claro que ele também emerge como um ponto crucial, considerando a sociedade em que vivemos atualmente. Essa é uma reflexão crítica do porquê falamos tanto em empreendedorismo agora.

Viemos de uma era onde a atitude individual tinha espaço limitado, dentro de um contexto onde a produção estava pautada, em sua maioria, pela linearidade da produção, pela busca incessante pela perfeição, onde o erro deveria ser evitado ao máximo. O mindset dominante desejado era a execução de uma “tarefa” pré-definida, guiado por um processo cuidadosamente validado. Nesse contexto, a lógica de empreender não era um comportamento desejado. Aqui estamos falando, aproximadamente, da década de 1950 até a revolução digital.

Avançando na revolução digital, onde a comunicação se torna uma via de mão dupla, e não mais apenas uma forma de difundir a informação, as pessoas passaram a ter espaço para disseminar o ‘pensamento/modelo’ próprio. O que vivemos hoje é contexto de troca e interação intensa. O modelo onde um detém a ‘verdade’, e os demais seguem, foi criado e implantado em um contexto em que era adequado e, sendo um processo evolutivo de sociedade, precisava acontecer, mas hoje não cabe mais.

Então, a minha visão da importância do empreendedorismo hoje é o resgate dessa natureza do pensamento complexo. Está claro que crises como a que estamos vivendo não se resolvem linearmente. Desafios complexos demandam uma combinação de pensamento criativo, audácia, determinação e ação coordenada, característicos do empreendedorismo. Hoje, a atitude empreendedora associada a um contexto de diversidade (de pensamento, de repertório, de conhecimento, etc.) caracterizam a riqueza de um ecossistema empreendedor.

O papel da tecnologia e da inovação

SD –  Você acredita que a tecnologia impulsiona o surgimento de novas ideias e de atitudes empreendedoras? Qual é a conexão disso com a inovação?

FF – Eu gosto muito dessa provocação. A lógica do termo empreendedorismo virar tendência, assim como a inovação, está associado ao contexto emergente de sair da linearidade e transitar no complexo.

A tecnologia é capaz de impulsionar a criação de novas ideias à medida que conecta as pessoas ou permite acesso ao conhecimento, por exemplo. A inovação é resultado da combinação de uma visão de futuros, criatividade e ação.

As tecnologias digitais podem sim ser habilitadoras, podem dar alcance a novas ideias e viabilizar ações, porém são apenas meios para que isso aconteça. A capacidade criativa e a atitude empreendedora são inertes às pessoas, ou seja, a inovação e o empreendedorismo podem ser (e são) impactados pelas tecnologias, mas nunca de forma isolada.

Risco e incerteza são características indissociáveis da inovação. É uma visão de futuro, onde uma hipótese pode vir a ser a solução de um problema. Quando falávamos em um contexto industrial da era anterior, o risco era algo evitado. A partir do momento que os desafios se apresentam cada vez mais complexos – e aí podemos falar na pandemia como algo muito evidente – frente ao incerto a disposição para errar em busca da solução precisa estar presente.

 O efeito da pandemia nos negócios

SD – Pensando nesse desafio da inovação, ainda mais frente à pandemia de coronavírus, como você vê a evolução dos negócios em 2020? E quais podem ser os próximos passos?

FF – Eu vejo a pandemia como uma lente na vida dos empreendedores. À medida que deixamos de circular e nos afastamos fisicamente, nos conectamos digitalmente de forma muito intensa. Todo empreendedor tem histórias para contar de situações totalmente inesperadas em suas trajetórias, uma mudança na legislação, um novo modelo de negócio que rompe o seu segmento de mercado, semelhante à realidade vivida pela maioria de nós, de um dia estar trabalhando em um escritório e no outro acordar com todo o escritório (e seus colegas) dentro de casa. A diferença agora é que esse ‘inesperado’ atingiu o mapa global. A capacidade de resiliência e foco, necessária a qualquer negócio, virou um assunto e uma demanda de atitude global.

As relações de trabalho mudaram drasticamente de um dia para o outro. Em meio à pandemia, ainda é arriscado determinar como serão os próximos passos. Porém, passados mais de seis meses da sua chegada, vivemos algumas mudanças, tangíveis ou intangíveis, que são absolutamente irreversíveis. O trabalho remoto é uma delas. Se antes existiam barreiras tecnológicas -ou de mindset – para o remoto, a pandemia transformou essa realidade em uma velocidade incomparável. Outra mudança irreversível é o foco no propósito e nas pessoas. A busca pelo equilíbrio entre produtividade e bem-estar tem sido um dos principais desafios do distanciamento.

Cidades inteligentes e a lógica do empreendedorismo

SD – Qual é a relação da pandemia com as cidades inteligentes? Onde o empreendedorismo e a inovação se encontram com a necessidade de criar cidades mais humanas?

FF – ‘Cidades inteligentes’ é uma daquelas temática desafiadoras de conceituar pois transita em diversas áreas de conhecimento e, por muitas vezes, cai em um “lugar comum” de associação pontual, por exemplo, ao uso de tecnologia por esferas públicas.

A cidade é um organismo vivo que se vale de uma estrutura prévia para acontecer. Aqui podemos fazer relação ao conceito de quadrupla hélice que representa ecossistemas de inovação, por meio da a interação da sociedade, de governos, academia e de empresas.

Acompanho o tema há pelo menos 15 anos e vi alguns movimentos acontecendo em paralelo. As cidades, obviamente, não pararam nunca, mas por décadas as tecnologias off-line evoluíram em um contexto e as tecnologias digitais em outro. Ainda enquanto os dois mundos pouco se tocavam, emergiu o primeiro contexto de cidade inteligente.

Podemos trazer um comparativo com a primeira roda de cidades inteligentes desenhada por Boyd Cohen, que é uma referência que reflete muito como essas duas esferas estavam pouco associadas. Ainda que não fosse a intenção do autor, o que olhamos a partir daquele primeiro mapa foi justamente o conceito de aplicação de tecnologia a um organismo vivo. Vimos a criação de grandes centros de controle implementados por cidades para garantir segurança, fluidez do trânsito e alguns serviços básicos criados para solucionar problemas que foram gerados pela natureza da cidade. Aquele primeiro desenho de cidade inteligente trata muito de infraestrutura, seja ela física ou não.

Evoluímos. E hoje o que vemos é que a pura aplicação de tecnologia não corresponde à realidade de uma cidade inteligente. Na arquitetura, ao construir um espaço físico, se deve seguir regras e normativas de segurança para que ele saia do papel. Mas, na realidade, ele só irá existir a partir do momento em que as pessoas passam a viver o ambiente. Um edifício ou uma cidade não existe sem interação. Então, esse desenho é revisado e – na segunda roda – Cohen coloca as pessoas no centro da cidade.

A cidade definitivamente inteligente é aquela que consegue estar viva o suficiente para que essas tecnologias respondam ao dinamismo que está acontecendo. Não há como implementar um sistema para dizer como você deve se comportar, é o contrário. Aqui podemos trazer o conceito de cidades responsivas, que a meu ver que faz mais sentido. Nessas temos um aparato de tecnologias aplicadas para entender os movimentos orgânicos e para torná-los ainda melhores. O que eu entendo da inteligência da aplicação da tecnologia é que, ter esse aparato, uma base de dados e realizar ações para infraestrutura é extremamente importante. Toda a estrutura tem que estar a serviço das pessoas, que estão no centro do processo.

Nesse momento também podemos falar do conceito de cidadão inteligente. Para que tudo isso funcione é necessário que cada um entenda o seu papel nesse movimento. Por exemplo, durante a pandemia podemos ver exemplos de aplicativo que monitora quem está com infectado e deve estar isolamento. Caso a pessoa saia de casa com o seu celular, ele irá detectar essa ação e emitir um alerta. Porém a tecnologia não garante que o cidadão seja monitorado se ele deixar o celular em casa. A capacidade de desenvolver a consciência coletiva é o que vai determinar a inteligência de uma cidade, não a tecnologia de forma isolada.

Para que a cidade inteligente aconteça, é necessário trabalhar a consciência das pessoas e ter uma legislação adequada. Acredito que esse conceito, no qual a cidade responsiva também está inserida, busca derrubar essa pretensão de que alguém vai controlar um movimento de pessoas. Ela trata de uma prosperidade compartilhada, que está muito relacionada com essa lógica do empreendedorismo. Aqui não me refiro somente a empresa, mas de dar a possibilidade de que todos podem prosperar. Isso fornece um vínculo genuíno – um propósito – como falei anteriormente das organizações.

A estrutura tradicional começa a mudar

SD – Falando tanto em empreendedorismo e cidades inteligentes é impossível não traçar um paralelo com o Uber, por exemplo. Qual é a sua percepção sobre esse modelo?

FF – Os aplicativos de transporte corroboram com o que estamos falando. É um modelo muito recente, mas que impactou um sistema linear já consolidado, não só do transporte individual, mas também do transporte coletivo. Inicialmente vistos como um segmento a competir com taxis, a mobilidade por meio de aplicativos impactou e ampliou as alternativas de deslocamento tanto para quem tinha carro próprio como para quem fazia uso exclusivamente de transporte público. Se inicialmente se falava em redução do fluxo de carros em razão dos aplicativos, o que vemos hoje é uma ampliação expressiva do fluxo de automóveis e redução do uso de ônibus, por exemplo.

Para além da mobilidade, os aplicativos de transporte também se inserem em um novo contexto de alternativa de geração de receita. Mais do que simplesmente ser uma fonte de receita, o que vemos é o despertar da autonomia e valorização do empreendedorismo individual, onde cada motorista tem a oportunidade de exercitar sua atitude empreendedora, organizando seu “negócio”.

Eu também percebo que os aplicativos mudaram completamente a lógica da compra de veículos. Logo que esses serviços chegaram ao Brasil, as pessoas utilizavam os seus carros particulares para realizar as corridas. Agora a maioria dos carros são “de frota” ou, muitas vezes, alugados. A tendência é que a oferta de automóveis com modelos que tenham um bom custo/benefício seja expressivamente ampliada, em relação aos modelos com muitos acessórios.

É óbvio que, quando falamos em carros de luxo, sabemos que eles não deixarão de existir. Porém, o trabalhar para “pagar o boleto do carro” está definitivamente mudando. Hoje as pessoas estão muito mais propensas a investir em uma viagem bacana a manter um carro na garagem, uma vez que existem inúmeras alternativas de mobilidade.

O papel da universidade e sua relação com o empreendedorismo

SD – Na ideia da necessidade de transformar as cidades brasileiras em cidades responsivas, como as universidades podem se aproximar do mercado e apoiar o empreendedorismo?

FF – Vejo isso como um movimento global, pois tradicionalmente esses empreendedores chegavam ao mercado depois de seguir uma trajetória acadêmica, e hoje essa linearidade não corresponde. O desenvolvimento da trajetória acadêmica e empreendedora acontece de forma concomitante.

Na PUCRS, por exemplo, o aluno tem a oportunidade de trilhar sua formação empreendedora desde os estágios iniciais da sua formação acadêmica. Nesse contexto surge o Track Startup, guarda-chuva que reúne todas as iniciativas que acontecem na PUCRS com foco no desenvolvimento de novos negócios. Conectando as Escolas PUCRS, o Laboratório de Empreendedorismo e Inovação – Idear e o Parque Científico e Tecnológico Tecnopuc. As estruturas atuam de forma conjunta para orientar esse potencial empreendedor.

A partir do reconhecimento do estágio de maturidade das iniciativas de empreendedores, conseguimos por meio do Track conectar ações promovidas pela Universidade, orientado para que seja possível encaminhar a iniciativa para o próximo estágio de desenvolvimento.

Para finalizar é fundamental mencionar a Aliança para a Inovação que envolve UFRGS, PUCRS e Unisinos. Sempre que falamos em um ecossistema, exaltamos a importância dessa atuação em rede. Vivemos a era da co-criação, do compartilhamento. Baseado nessa abordagem seguimos no amadurecimento do nosso ecossistema de inovação, somando e potencializando iniciativas com poder de transformar positivamente nossa realidade. 

Sugestões ou críticas para nosso blog? Entre em contato pelo endereço mkt@softdesign.com.br.